Por trás de um comportamento



Tendemos a achar que a parentalidade passa por controlar o comportamento dos nossos filhos. É o comportamento que nos salta à vista, que chama a atenção, que nos dá alguns indicadores.

Quando o comportamento se altera, ficamos alertas. Se este passar a ser disruptivo, ficamos preocupados. Muitos pais tendem a resolver os maus comportamentos com castigos, ralhetes, um grito, às vezes uma palmada. Ninguém quer ouvir “o seu filho porta-se mal”.

Mas muitas vezes estas “estratégias” não resultam. Por trás do comportamento há muito que não conseguimos (e muitas vezes não queremos) ver.


É como se olhássemos para a ponta de um icebergue à tona da água – este é o comportamento. Mas se procurarem a imagem de um icebergue verão que a sua maior dimensão está por baixo de água, aquilo que não conseguimos ver – e aqui entram as mais variadas dimensões que constituem o ser humano.


Por trás de um comportamento existem:


- necessidades básicas;

- funções executivas;

- competências sociais;

- auto-estima;

- as mais variadas emoções – raiva, tristeza, êxtase, ansiedade;

- segurança emocional;

- pensamentos;

- necessidade de atenção;

- necessidade de pertença;

- vinculação;

- necessidades sensoriais;

- nível de desenvolvimento;

- sono;

- segurança física;

- necessidade de limites claros;



Uma criança está a aprender a expressar-se. Se nós adultos temos muitas vezes esta dificuldade, imaginem uma criança. Ela quer passar-nos uma mensagem, mostrar-nos o que necessita.

Mas na sua ainda imatura auto-regulação, é o comportamento que trás uma mensagem por desvendar. E quando algo não está bem, o comportamento pode ser disruptivo.

Eu ainda sou uma criança”; “Ainda estou a aprender”; “os meus pais não querem/não têm tempo para me ouvir”; “eu sou pequeno sabias?”

Estas são algumas frases que oiço muitas vezes em consulta. Na nossa vida de adultos, tendemos a esquecer estes pormenores. Não refletimos, não paramos, não olhamos verdadeiramente para as nossas crianças. Não nos lembramos da sua imaturidade, da sua aprendizagem constante, dos seus "comos" e "porquês".



Crianças que estão constantemente a reclamar e a amuar, por vezes são apenas crianças que se sentem impotentes, com dificuldade em encontrar estratégias para resolver os problemas. Frequentemente precisam de espaço para chorar.


Crianças muito controladoras, “mandonas”, muitas vezes têm medo que as suas necessidades não sejam respondidas.


Crianças que provocam, muito competitivas, que competem constantemente com os irmãos, frequentemente precisam de ser mais validados por aquilo que são, precisam sentir-se (mais) conectadas com os pais.


Crianças que não ouvem o adulto muitas vezes não se sentem ouvidas; acham que os seus desejos não são tidos em conta.


Crianças muito rebeldes às vezes precisam de oportunidade para se sentirem poderosas, em controlo, competentes no seu dia-a-dia


Crianças que desrespeitam, que não cumprem regras, às vezes querem apenas mostrar que não se sentem verdadeiramente conectadas com as suas figuras de referência.


Notem que coloquei sempre a adenda do “talvez”, “às vezes”, ou seja, não será assim com todas as crianças, não é seguramente assim em todos os casos onde estes comportamentos surgem. No entanto, espero que este texto nos recorde de como é importante estarmos atentos às nossas crianças, procurar conhecê-las e olhá-las além do óbvio. Porque afinal, “o essencial é invisível aos olhos”.


Photo 1 by Caleb Woods on Unsplash; Photo 2 by Samantha Sophia on Unsplash; Photo 3 by Joseph Rosales on Unsplash

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